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Fernando Pessoa

 

EM BUSCA DA UNIDADE PERDIDA

 

O percurso existencial de Fernando Pessoa, porventura o maior vulto da cultura portuguesa do século XX, mais não foi do que uma longa viagem empreendida por um homem-artista-actor subjugado pelo desconhecimento de si mesmo e com ganas indómitas de encontrar um rumo coerente que lhe permitisse quebrar o vidro ténue que se levantava entre ele a vida.

 

Este fingidor nato queria ver nitidamente a vida, compreendê-la, mas sobretudo tocar-lhe. Queria, por certo, ultrapassar a barreira intransponível que distingue a realidade que existe e o sonho, que é a realidade que não existe. Por isso, embrenha-se por ínvios caminhos, sozinho ou na companhia de seres que ele próprio vai criando, numa viagem de (re)descoberta de si mesmo e dos outros. É essa viagem fantástica que nos propomos, de seguida, contar.

 

Era uma vez um menino a quem chamaram Fernando António Nogueira Pessoa. O dia 13 de Junho de 1888 marca o início da sua viagem terrena, uma viagem que teve como ponto de partida a cidade de Lisboa, mais concretamente o prédio nº 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório), na freguesia dos Mártires, e que conhecerá muitas turbulências e sinuosidades ao longo do seu itinerário, com incursões fugazes pelos mais variados meandros da existência humana.

 

O menino Pessoa.

Ora, o dia 13 de Junho era (ainda é) o dia de Santo António e foi precisamente em homenagem ao grande santo e doutor da Igreja que Maria Madalena Pinheiro Nogueira e Joaquim de Seabra Pessoa, pais legítimos de Pessoa, puseram o nome de Fernando António ao recém-nascido. É que o nosso (não de Pádua) santo taumaturgo franciscano, apelidado em vida de o martelo dos heréticos, também fora baptizado com o nome de Fernando, tendo, no entanto, adoptado o de António quando abandonou o século e se ordenou no Eremitério de Santo Antão dos Olivais, no já longínquo ano de 1220.

 

O menino Fernando teve uma infância supostamente feliz, se não uma infância de facto vivida, pelo menos uma infância (re)inventada. É o que se conclui de versos como: "O tempo que hei sonhado / Quatro anos foi de vida!" Ou ainda: "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu era feliz e ninguém estava morto".

Foram a consciência da vida e a realidade da morte, inesperada e impiedosa, que vieram manchar e destruir o muro branco dessa época venturosa, transtornando-o e ensombrando-o.

 

O pai morre-lhe aos seis anos de idade, vitimado pela tuberculose. Pouco depois, é o seu irmão Jorge, que ainda não completara 1 ano de idade, que é ceifado cruelmente pela morte madrasta. O desaparecimento de um e outro são as primeiras estaladuras do espelho onde se revê.  Com as ausências do pai e do irmão, vai-se um pouco da plenitude até então sentida. O seu Eu começa a sofrer um longo processo de deterioração e o ainda menino deixa de se sentir um Eu autêntico, para passar a ver-se como um vestígio e um simulacro de si mesmo. E  uma complicada e  extenuante etapa da sua viagem de BUSCA vai iniciar-se… Por espaços físicos mas também por espaços culturais, psíquicos e cósmicos.


Joaquim Seabra Pessoa,
pai de Fernando Pessoa.

 

Aos seis anos cria o seu primeiro heterónimo – Chevalier de Pas – “por quem escrevia cartas dele a mim mesmo.”- Já se fazia sentir a necessidade, depois confirmada de forma exacerbada, de criação (invenção) de amigos com quem pudesse ludicamente conversar. A fragmentação da sua personalidade começa a evidenciar-se e o problema da outridade vai atingi-lo inapelavelmente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fernando Pessoa, antes de ser grande.

Antes dos oito anos de idade parte para África do Sul, com a mãe, que entretanto casara, em segundas núpcias, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul interino de Portugal em Durban. Aí é confrontado com uma nova língua, uma nova cultura, uma nova forma de ver e encarar a realidade. Frequenta a instrução primária no Convento Católico de West Street e depois a High School de Durban e a Escola Comercial da mesma cidade. É toda uma reaprendizagem que tem de ser levada a cabo e são mais algumas lascas que fendem o espelho, fragmentando a sua imagem, cada vez mais deturpada e múltipla.

 

Já há muito que tinha deixado de ser o menino de sua mãe, visto que a sua condição de filho único desfez-se com o nascimento sucessivo de cinco meio-irmãos.

O rompimento da concentração maternal na sua pessoa, encarada como uma espécie de segunda orfandade, repercutiu-se-lhe profundamente na alma. Torna-se retraído, ensimesmado, introvertido e, à laia de compensação psicológica, amante das aventuras do espírito, razão por que se interna, então, pelas veredas insondáveis das leituras heterogéneas. Lê de tudo um pouco: os clássicos e românticos ingleses, os simbolistas franceses, livros de psiquiatria e teosofismo, filósofos variados (Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, Edmund Husserl, Ludwig Wittgenstein), enfim, tudo o que pudesse constituir/conter uma possível resposta para as perguntas angustiantes que o começam a atormentar - Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?

 

Pessoa em Durban.

Revela-se sempre um óptimo aluno. Aos quinze anos faz o exame de admissão à Universidade do Cabo e ganha o Queen Victoria Memorial Prize, um prémio destinado ao melhor ensaio em estilo inglês.

A sua fértil imaginação leva-o a percorrer ousadamente as vias da heteronímia. Cria personagens fictícias, autores de poemas e textos em inglês, tais como o semi-heterónimo Alexander Search (que significa, curiosamente, Alexandre Busca) e, ainda, Charles Robert Anon, H. M. F. Lecher e A. A. Crosse. São companheiros que lhe mitigam a solidão e através dos quais se procura a si mesmo e à Verdade.

 

Aos dezassete anos regressa, sozinho, a Portugal. O apelo da pátria, a terra mítica onde ficou o seu pai, foi mais forte que a vivência desafogada no seio de uma família que afinal era a sua.

Inscreve-se no Curso Superior  de  Letras,  em Lisboa,  mas  depressa  constata  que  o ensino ali ministrado não o satisfaz. Acaba por desistir, sem ter completado o 1º ano. Envereda então pelo mundo do trabalho, tornando-se correspondente comercial, sem outra ambição que conseguir a almejada independência económica.

 

Em Lisboa, Pessoa é um jovem fragilizado, dividido entre as referências culturais inglesas e a realidade portuguesa. Sente-se, por isso, duplamente órfão, carente de ternura, preso na ambiguidade dos seus dois exílios (o vivido na África do Sul e o sentido agora, na capital portuguesa). A Lisboa de outrora, a do “céu azul” da sua infância, não é a mesma de hoje. Agora está inundada de Abismo e Silêncio. E é precisamente para fugir a esse Abismo e Silêncio que Pessoa viaja, num corrupio. Pela literatura ortónima. Pela literatura heterónima. Pelos cafés. Pelos vícios do álcool e do tabaco. Quanto mais foge, mais sofre… Vai partilhando, contudo, a sua dor com a Pátria, na qual se revê, pois como ele também ela está mergulhada no nevoeiro e numa indefinição sem fim, também ela sobrevive espartilhada entre os esplendores do passado e a crise modorral do presente. Aliás, é esta imagem da pátria triste, sofredora e sonolenta que nos é transmitida na Mensagem, uma imagem que coincide exactamente com a sua. O entorpecimento (seu e da pátria), todavia, não durará para sempre. Assim como Portugal já vê raiar a luz do Quinto Império que, paulatinamente, rasga a cerração do nevoeiro para se afirmar, num futuro próximo, em todo o seu esplendor, também o jovem da nossa história continua a alimentar a chama da Esperança. A sua viagem de Procura tem percalços, desejos ingénitos de desistência, mas na partida para uma nova etapa ele lá está, pronto para desafiar a adversidade. Arrasta consigo personagens que, febrilmente, vai criando: Bernardo Soares, Vicente Guedes, António Mora, o Barão de Teive, Carlos Otto, C. Pacheco. Todos eles servem-lhe de lenitivo, são mais uma tentativa para se encontrar (desencontrar-se?). É que a fragmentação do seu ser já não pode ser negada, como bem o espelham os versos interseccionistas de Chuva Oblíqua e a criação dos seus três principais heterónimos.

 

Estamos no ano de 1914. No dia 8 de Março. O dia triunfal da vida de Pessoa, fazendo fé nas suas próprias palavras. Num estado de neurose pura, dominado por uma espécie de êxtase, de pé, escreveu trinta e tantos poemas a fio, posteriormente agrupados na obra que foi titulada O Guardador de Rebanhos.

 

Tinha nascido Alberto Caeiro, o Mestre do próprio Pessoa (até onde vai a desmembração heteronímica do artista!… Até onde vai a sua capacidade de fingimento!...). Mas o espírito inquieto do Poeta não ficou por aqui. Aparecido Alberto Caeiro, tratou logo de lhe descobrir discípulos. E assim surgem Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Através deles, Pessoa viaja no tempo e pelo mundo das ideias. Com Alberto Caeiro recria a simplicidade, a inconsciência da infância que nunca gostaria de ter perdido. Proclama a ingenuidade, a espontaneidade, o afastamento de tudo o que é metafísico: Há metafísica bastante em não pensar em nada. Procura viver o presente tendo como princípios orientadores as filosofias epicurista e de Zen, bem como a fenomenologia de Husserl. Ao fim e ao cabo, através do Mestre Caeiro Pessoa submete-se a um exame introspectivo, faz uma autocrítica, confirmando que a infelicidade de Pessoa-ipse deriva do facto de ser um ser pensante, consciente.

 

Reis: pormenor do

mural de Almada Negreiros.

Como gostaria de ser, por isso, o gato que brinca na rua ou a pobre ceifeira que canta, julgando-se feliz talvez!…

 

Com Ricardo Reis refugia-se no passado e busca a tranquilidade de espírito, adoptando o paganismo, a moral estóica, a filosofia de Epicuro e lutando pela obtenção de um prazer relativo, fugaz, sem a perda da liberdade interior, ou então pela consecução da indiferença perante a dor e ainda pela aurea mediocritas. Elege como seu ideal poético o poeta latino Horácio.

 

 Ama, com uma certa frieza, ou diz amar, as mulheres que  Horácio  amou (Lídia, Cloé  e  Neera)  e   com   ele  sente

acerbamente a fuga inelutável das horas, prega a moderação nos desejos   e  nos  prazeres,   as   delícias  do  viver  campestre,  a  vantagem em iludir o sofrimento com o vinho e o espectáculo das flores, em enfrentar o infortúnio com um sorriso tranquilo e descuidado nos lábios.

 

Com Álvaro de Campos, seu companheiro de psiquismo, liberta-se pelo tempo futuro, vagueia pelo Oriente, recorre ao ópio, canta a vida “por bebedeira”, faz a apologia de um homem novo, protótipo de alguém que se deixa conduzir pelas sensações desenfreadas, alimentando o desejo secreto e megalómano de ser toda a gente em toda a parte. Mas a histeria de sensações não leva ninguém a bom porto. Depressa encontramos um Álvaro de Campos subjugado pelo tedium vitae, descontente de si e dos outros, devaneador, melancólico, vazio, abúlico, irmão do Pessoa ortónimo no cepticismo, um ser que vai “fumando a vida” e que se constitui como o único heterónimo que comparticipa da vida extraliterária de Pessoa.

 

Caricatura de Álvaro de Campos.

Nesta história dramática de Pessoa, constatamos que, inexoravelmente, tudo na vida conduz o escritor para o esgotamento e a resignação. Não admira, pois, que ele necessite diligentemente de iludir essa mesma vida. E fá-lo viajando também pelo espaço.

Devaneia pelo mundo da astronomia, da astrologia, da mediunidade, do espiritismo, das ciências ocultas. Foi médium, traçou horóscopos, partilhou ideais das sociedades secretas (a Fanco-Maçonaria, a Santa Kabbalah, os Rosa-Cruzes, os Templários…). Procurou no oculto as respostas que o visível não lhe dava.

 

Poucas vezes a vida lhe sorriu. Só na infância, no tempo em que o azul do céu era azul azul. E foi com mágoa que o nosso escritor terminou a sua viagem terrena. Corria o ano de 1935. Estávamos em 30 de Novembro. Uma crise hepática pôs termo a uma existência difícil, complexa, humanamente falando, mas repleta de vivências e contornos artísticos dignos dos maiores encómios.

 

A circularidade da viagem empreendida não lhe permitiu fazer progressos no seu trabalho de BUSCA. Ele próprio teve consciência disso quando afirmou que “Não evoluo. Viajo.” Nunca logrou compreender-se. Nunca chegou a conhecer-se verdadeiramente. Nunca soube ao certo se teria sido o emissário de um rei desconhecido, nem tão pouco se cumpria informes instruções de além. Nunca mais recuperou a UNIDADE PERDIDA… E são ressaibos amargos que se desprendem das afirmações proferidas pelo seu semi-heterónimo Bernardo Soares, no curiosamente chamado Livro do Desassossego: “A minha vida é como se me batessem com ela.”; “ Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém.”; “Sou os arredores de uma vila que não há (…). Sou o centro de tudo com o nada à roda.”

Uma das razões que explicarão a inanidade da sua vida tem a ver, sem dúvida, com a solidão. Ele foi, no dizer de M. Glória Padrão, um homem triplamente solitário: perdido diante da infinidade cósmica, divorciado dos outros por se ter adiantado demais aos companheiros de viagem e afastado de si próprio por não encontrar a unidade que nem os deuses têm. Apesar de tudo, somos obrigados a reconhecer e a enaltecer a coragem de Pessoa. Nunca desistiu e a sua persistência propiciou-nos obras de arte de incalculável valor. Nesse sentido, o caminho aberto a talho de foice e salpicado de pegadas de solidão e sofrimento na floresta indesbravável do EU PROFUNDO valeu a pena.

E assim termina a história da viagem terrena desta personalidade ímpar da literatura e cultura portuguesas. Compete-nos a nós dar seguimento a uma nova digressão. Agora pelos caminhos sedutores dos textos pessoanos. Presentifiquemos o Poeta e vivifiquemos o nosso espírito.

(Joaquim  Matias da Silva)

 

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