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«A Incredulidade popular sobre a morte de
el-rei
D. Sebastião começou logo com as
primeiras notícias que chegaram ao reino da
derrota de
Alcácer Quibir. Querem alguns que as
esperanças do povo fossem adrede sustentadas
pelos que mais haviam instigado aquela
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triste
jornada, para evitarem a responsabilidade de seus
fatais conselhos. O facto é que, no público, nunca
se acreditou bem na morte de el-rei. E nenhum, de
tantos que escaparam, nenhum disse nunca que o vira
morrer. No epitáfio de Belém, pôs-se a ressalva: «si
vera est fama». Os vários impostores que em diversas
partes aparecem, tomando o nome de D. Sebastião, em
vez de destruírem, confirmaram as suspeitas
nacionais. O verdadeiro ou falso Sebastião, que foi
entregue em Veneza e atormentado em Nápoles, deixou
dúvidas profundas nos ânimos mais seguros.
Menos bastava para dar cor e crença à multidão de
fábulas romanescas e poéticas, de que se encheu logo
Portugal e que duraram até os nossos dias. O
sebastianismo é outro carácter popular que
ainda não foi tratado e que, em hábeis mãos, deve
dar riquíssimos quadros de costumes nacionais. 0
romancista e o poeta, o filólogo e o filósofo
acharão muito que lavrar neste fertilíssimo veio da
grande mina de nossas crenças e superstições
antigas». (A. Garrett).