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FREI LUÍS DE SOUSA - Anotações

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AIO VELHO - «Não é de invenção minha este argumento que convence tão fortemente o bom do aio velho, e que me lisonjeio de ser uma das coisas mais características e originais que o observador não vulgar encontrará talvez nesta composição. Tirei-o de um   precioso   tesouro   donde

tenho  havido quási tudo o que em meus escritos literários tem tido a fortuna de ser mais aplaudido. O tesoiro são as reminiscências da minha infância, e o estudo que incessantemente tenho feito da linguagem, do sentir, do pensar e do crer do nosso povo, que é o mais poético e espirituoso povo da Europa.
Quero contar como me lembrou de pôr aquelas palavras na boca de Telmo Pais. Eu passei os primeiros anos da minha vida entre duas quintas, a pequena quinta do Castelo, que era do meu pai, e a grande quinta do Sardão, que era, e ainda é, da família de meu avô materno José Bento Leitão; ambas são ao Sul do Douro, ambas perto do Porto, mas tão isoladas e fora do contacto da cidade, que era perfeitamente do campo a vida que ali vivíamos, e que ficou sendo sempre para mim o tipo da vida feliz, da única vida natural neste mundo. Uma parda velha, a boa Rosa de Lima, de quem eu era o menino-bonito entre todos os rapazes, e por quem ainda choro de saudades apesar do muito que me ralhava às vezes, era a cronista-mor da família, e em particular da capela e da quinta do Sardão, que ela julgava uma das maravilhas da terra e venerava como um bom castelhano o seu Escorial. Contava-me ela, entre mil bruxarias e coisas do outro mundo que piamente acreditava, que também naquelas coisas «se mentia muito», que de meu avó, por exemplo, diziam que tinha aparecido embrulhado num lençol passeando à meia-noite em cima dos arcos que trazem a água para a quinta: o que era inteiramente falso, porque «ela estava certa que, se o Sr. José Bento pudesse vir a este mundo, não se ia embora sem aparecer à sua Rosa de Lima». E arrasavam-se-lhe os olhos de água ao dizer isto, luzia-lhe na boca um sorriso de confiança, que ainda agora me faz impressão quando me lembra.
A poesia verdadeira é esta, é a que sai destas suas fontes primeiras e genuínas; não são arrebiques de frases tiradas de gregos ou latinos, de franceses ou ingleses, segundo é moda; nem «rifaciamentos» exagerados - hoje, da sensaboria descorada da escola «passigráfica», que distinguiu a nacionalidade de todas as literaturas no fim do século passado e princípios deste,- amanhã de quanto há mais obsoleto e «irrevocável» no estilo inrevesado, nas ideias confusas, nos princípios indeterminados dos croniqueiros velhos. A literatura é filha da terra, como os Titans da fábula, e à sua terra se deve deitar para ganhar forças novas, quando se sente exausta. (A. Garrett).
 

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© Joaquim Matias 2007